
coleção nova

EU NÃO ESTOU AQUI
Eu não estou aqui.
A minha casca está.
A casca não sou eu.
É o que fui outrora.
Ela não sou eu.
Mas ela também não é o outro.
É o que eu fui e deixei de habitar.
A casca sou eu,
mesmo eu não a sendo.
Com ela não permito me identificar.
Às vezes, a casca vai no meu lugar.
Sorri, acena.
A casca é dura.
Eu, mole.
Eu não estou aqui.
E nunca aí.
Eu estou deitada no tapete.
E, quando ali, sou dele.
Sou ele.
Sou o tapete.
E depois, não mais.
Eu, enquanto tapete,
resolvi não me deixar pisar.
Sorrateiramente, me embolo.
Faço o outro tropeçar.
Eu nasci tapete.
E sem intenção de me desculpar,
por mais que me tentassem doutrinar.
E, pelas ausências de desculpas,
mea culpa.
Resolvi me metamorfosear.
Às vezes, sou o ovo.
Aquele que ninguém entende.
O da Clarice.
Eu entendo o ovo,
porque só quem já foi ovo entende o ovo.
Casca dura, miolo mole.
O nosso relacionamento é um mar de ovos.
E eu quebrei todos
com minha passada passional.
A tua casca é fina.
A minha já foi.
Até que comecei a calcificar
cascas sobrepostas
às outras já quebradas.
Acaba que sou pesada,
com todo esse casco emocional.
E aí, eu sou humana
enquanto pele,
queloide.
Crescimento anormal
de tecido cicatricial.
Desordenada
e de bordas irregulares.
Sou do introspecto,
ainda que me falte derme,
algumas camadas since 86.
Cascuda com
rompantes superficiais,
em tempos de superfície,
quem tem miolo é rei.
Eu também sou um cacto.
Mas esse eu sonhei,
não quero contar.
Segredo.
Nem é.
Cacto é espinho por fora.
E água dentro.
Eu sou confusa desperta.
Dormindo, sou literal.
E, às vezes, acordada,
sou chata.
Depende do dia.