
coleção nova

O CORPO
Tem um corpo na sarjeta.
Largado sem identificação.
Corpo de mulher.
O ser humano é bicho engraçado,
com comportamentos que
merecem observação.
Esse poema é um estudo de caso.
Não é sobre o corpo na sarjeta.
É sobre todos que passam na beira.
Essa é uma analogia de como o corpo feminino incomoda
em várias vias.
É sobre os desconfortos
que o corpo causa.
O corpo na guia.
Para um estudo de caso adequado,
deve se ater a todo
material coletado.
Toda e qualquer informação.
Porque está ali, do que morreu.
Estudo minucioso de ação.
Num país onde se culpam vítimas,
morreu provavelmente
porque chamou atenção.
Mas vamos aos fatos:
Sabe-se com clareza:
Sexo feminino,
por volta de 1,70.
Sobre o rosto ainda não é possível identificar.
Nenhuma característica que salte aos olhos,
tudo bem familiar.
Nos parece uma mulher qualquer,
nada de especial.
Latina, de traços simples arredondados,
olhos amendoados,
cabelos castanhos, finos e enosados.
O cadáver encontra-se rígido,
em posição fetal,
encolhido feito animal,
leva as duas mãos ao rosto,
como quem escondesse a face
pra não ver o mal.
Mas esse poema investigação
não é sobre o corpo morto
sem função.
É sobre o que causa
o corpo na sarjeta
aos transeuntes dessa via.
Não se sabe ainda o quê ou quem matou aquele corpo.
Mas todos se tornam suspeitos da ação
quando, ao avistar o corpo na sarjeta,
todos parecem ter ligação
com o cadáver em início
de decomposição.
É importante pontuar o porquê não recolhemos o corpo que está a enrijecer.
O corpo gera certa comoção.
Mas reações atípicas,
recebe diferente atenção.
Então resolvemos deixar o corpo na via e observar, de longe, à espreita,
se conseguimos descobrir por dedução,
o autor do delito, da ação.
Os primeiros a passar por ali:
Um casal de meia-idade.
A mulher leva a mão ao rosto numa reação, parece chorar.
Mas têm dificuldade pra fazer uma aproximação, se sente mal.
Apenas se aproxima pra lhe cobrir a púbis, parece ter problemas com a exposição indevida do órgão genital.
O homem tem reação visceral, arregala os olhos, perde a cor ao avistar o corpo feito indefeso animal, se desespera paranoico procurando culpados.
Mas, como num passe de mágica, se descola do ato, para, enxuga o rosto e se distancia; quando volta, parece não ter mais ligação com o corpo na guia.
Enquanto a mulher dali não saiu, fez vigilância, zelando pela morta, misto de distância e zelo,
parece ter problemas com o cheiro.
Não sabemos quem são, se possuem ou não ligação, tudo indica que sim.
Existiram ali reações de afeto, claramente existe elo.
Depois que foram embora,
chegou outro indivíduo.
Aparência de asseado, bem-nascido.
Parecia desolado, triste pelo fato.
Mas não demonstrou carinho pela morta.
Lhe deu 3 batidinhas nas costas,
pegou uma vassoura e
varreu em volta.
Depois parou ali olhando o corpo,
apoiado na vassoura, mão no queixo, cabeça nas nuvens, sem esboçar reação.
Pensou em levar o corpo dali e guardá-lo no porão.
Pareceu acessar alguma memória daquele corpo em ação, olhou o corpo lascivamente por 3 minutos e foi embora sem choro ou comoção, tinha coisas a fazer.
Mas não saiu sem antes não se esquecer dos anéis recolher.
Não houve reivindicação.
O corpo continua na sarjeta.
Apareceu depois um rapaz, discreto, de aparência pacífica,
acompanhado de uma mulher de estatura baixa, cara de sofrida.
De braços dados, se aproximaram do corpo na sarjeta,
cochicharam.
O rapaz se aproximou do corpo para checar a rigidez cadavérica.
Ele desconfia que o cadáver finge a própria morte de maneira tétrica.
Num misto de familiaridade e desdém,
olhou minuciosamente, como quem buscasse também
provas,
qualquer coisa que acompanhasse a morta, objeto comprobatório de elo afetivo com o indivíduo.
Na ausência, respirou aliviado: nenhuma foto de criança na carteira, nada que o ligue ao corpo na sarjeta. Não tocou na morta,
não mostrou afeto, não teve comoção,
desviou o olhar
para que o corpo não lhe gerasse emoção.
Já a mulher riu com malícia e desdém: que bom que está morta!
Parece que esse corpo pra ela é alguém.
Ela lhe põe tanta atenção, olha sem parar, se comparando com certa fixação.
Essa, aliás, é uma postura corriqueira: muitas outras mulheres com atitude semelhante
param e julgam, gostam de olhar.
Não existe sororidade, cuidado ou compaixão.
Com o corpo na sarjeta,
não existe identificação,
apenas comparação
consigo própria, na aparência e silhueta.
O corpo na sarjeta incomoda mulheres e homens também, parece não poupar ninguém.
Atitudes que nos causaram certa estranheza: como pode um corpo de aparência comum e nunca é demais mencionar: morto, causar tanta frieza?
Frieza essa que deveria ser uma característica do cadáver em questão, jamais dos sujeitos da ação.
Notamos algumas que pareciam ex-amigas se aproximar:
Poucas.
Uma nos chamou atenção:
Amedrontada, temente do próprio desfecho, contou aos que passavam que habitava a mesma esquina e que, há algum tempo atrás, tiveram que correr e que, na fuga, com medo de perder a vida, não pensou duas vezes, decidiu correr sozinha, soltou a mão da amiga.
Aí saiu do crime, deixou a sua dupla sozinha.
Foi performar outro papel por segurança e aceitação; pra defunta não sobrou opção.
Veio muita gente interagir com o corpo,
de atitudes diversas, mas o que mais predominou foi descaso, raiva e incômodo.
O terceiro nos causou novamente espanto.
Por que alguém se incomodaria com um corpo MORTO?
Tem também aquelas oportunistas que pela morta nada sentem,
se aproximam por curiosidade,
fazem uma selfie com a defunta por pura morbidez e vaidade.
Outras fingem proximidade,
no ato falso de amizade,
performam lamento e choro
ao lado do corpo,
mas a atuação fajuta e histriônica
das falsas amigas carpideiras
termina como começou,
de maneira rápida e camaleônica.
Quando se dão conta que a performance com o morta pouca atenção gerou,
partem para outra situação,
sem remorso ou comoção.
Não existe elo com o corpo em questão.
Tempos depois,
vem outro estranho rapaz.
Se aproxima do corpo de forma curiosa.
Parece conhecer,
mas não se aproxima demais,
examina quase perito, olho no olho,
do corpo em decomposição.
Curioso é que, quando se nota observado, se afasta ainda mais
e trata o corpo de maneira mordaz,
se mostra indiferente, mas performa contradição.
Porque, quando a multidão dispersa, muda a face e olha nos olhos da morta com compaixão, como quem soubesse a razão.
Sente cumplicidade,
mas também certa irritação.
É confuso e tem
dificuldades pra acessar
o próprio emocional.
O sujeito é racional.
Ele sente afeto por aquele corpo
mas repudia o sentimento.
Tem medo do que vê ali.
Olha no fundo do olho vidrado
e se vê no passado.
O olho da morta parece lhe espelhar.
Ele se esforça pra não se irmanar.
Tenho a impressão de que, se ninguém estivesse ali a julgar,
ele iria ao lado da morta deitar.
A presença da morta parece,
de certa forma, lhe confortar.
O cheiro da morte não gera incômodo.
Talvez seja familiar.
Tempos depois, uma turba barulhenta se aproxima,
dizendo em alto e bom tom:
Vamos o corpo linchar.
A turba atrapalha os pensamentos do rapaz estranho,
que inconsciente atende o comando.
Ele escuta longe: Vamos chutar!
E desperta dos devaneios
com a palavra na boca feito imposição:
Preciso chutar!
Para os meus débitos com a sociedade sanar.
E ele finge chutar o corpo na sarjeta.
É o que manda o protocolo social.
Ainda que aquilo lhe cause, no fundo, muito mal.
Mas é o que a sociedade pede, patriarcal:
chute o corpo na sarjeta.
Ainda que isso lhe deixe ferido,
antes chutar o corpo do que bancar
que aquele corpo
pra você é querido.
Que esse corpo já foi alguém,
que lhe fez bem,
e que é dolorosa essa partida.
Agora está ali,
carcaça, sem vida.
Alguém na turba diz:
Chute no rosto pra desfigurar!
Outro sugere:
Chute no ventre que é onde o pé parece melhor encaixar!
Mas quem é essa turba?
Não vamos identificar um por um.
Perda de tempo.
É um aglomerado desocupado,
de homens e mulheres
sem relevância, frustrados.
Tocha na mão, sedentos de retaliação,
são todos doidos pra queimar
pirotecnia com qualquer mulher que eles julguem rebelde ou vulgar.
Na verdade, é uma turba medrosa
que tem medo da morta.
Espalham engodos.
Dizem que a defunta engana a todos,
que é oblíqua e dissimulada,
metida a Capitu.
Diz a lenda que
se faz de morta, mas de forma
milagrosa ressuscita,
levanta, arranca a pele lacerada, queimada,
abandona a carcaça e
renasce outra, distinta.
E caminha lentamente,
visitando um por um.
Sempre tem algo a dizer.
Frases enigmáticas.
É que ninguém conseguiu ainda
a boca da morta colar.
Dizem que, quando ressuscita,
destrambelha a falar e é cansativa.
A morta interrompe:
Silêncio, a chata vai falar.
A turba em uníssono e sem opção:
Vai, chata, fala!
Fácil me chamar de cansativa.
Mas já ouviu dizer como é exaustiva a vida de quem fala e não é ouvida?
A gente precisa recitar um calhamaço pra conquistar o espaço que outros conquistam calados. Desculpe se meu papo te entediou, se meu desfile atrasou, mas eu tô falando que tô morta emocionalmente e você aí discutindo o show?
Sorte da turba seria se a defunta
fosse fleumática,
não reagiria a nenhuma ação,
mas a cadavérica é colérica.
Ela não esquece, não.
O que parece incomodar a multidão
é que a defunta não defunta parece não perecer.
Não existe ataque, violência, investida covarde por trás que a faça de fato morrer.
Esses atos, na verdade, parecem produzir efeito contrário.
O que concluímos desse caso é que ninguém a matou.
Se faz de morta porque quer, mas principalmente quando precisa sobreviver.
Contraditório, sim.
Mas a defunta é inofensiva se não for corrompida.
O que gera consequências para terceiros
é se o vilipêndio de cadáver ocorrer; quando isso acontece, é sabido e esperado:
Chute o corpo e
a falecida vai renascer.
A morta autoajuda interrompe pela última vez a análise forense social:
Nunca ouviram dizer que é preciso várias vezes morrer pra bancar pra si e pros outros todas as verdades indigestas que a gente costuma esconder?
Ninguém é só perfume, é chorume também e, por vezes, sem escolha, vazamos nos outros pra poder dividir os líquidos, decompor as questões.
E o incômodo existencial fede.
A lição que fica deste cortejo é:
exerça sua personalidade sem medo,
sustente os seus desejos.
E, para isso,
morra quantas vezes precisar,
vaze em quem suportar,
entenda e dê adeus a quem decidir não ficar, até que você aprenda sozinha a se exercer.
Bancar a parte mais feia de SER.
Porque concordar e calar pra manter é o mesmo que não existir, é certidão de óbito socio existencial.
E quando eu realmente partir,
terei perdido as contas de quantas vezes morri.
Dormirei tranquila sabendo que eu verdadeiramente
e às duras penas,
existi.
Recado dado.
Até porque mortas teoricamente
não falam.