
coleção nova

ASTRONÁUTICA
LUA NOVA
Me encontra esperançosa.
Tudo vai mudar.
Está escuro e por isso
não te vejo, mas te sinto,
sinto no ar.
Este satélite vai chegar,
colocando luz nas minhas habilidades,
me contemplando,
mostrando certezas e vontades.
Como tantas outras vezes,
uma maré de novidades.
LUA CRESCENTE
Feixe de luz surge no olhar.
Brilho presente no que era reticente.
Atravessa de fininho minha água turva.
Ilumina meus corais e
as escamas dos meus peixes.
LUA QUARTO CRESCENTE
Metade luz, metade ausente.
50%. Contemplação, 50% escuridão.
Deve ser alucinação.
Minha mente é doente.
Pra mim, todo satélite mente.
Preciso aprender a confiar.
LUA CRESCENTE GIBOSA
História perfeita, quase redonda,
mas tem algo que não cola.
Algo estranho nessa prosa.
Estou implicante.
Acho que são as minhas flutuações marítimas uterinas.
Fico exigindo perfeição.
Na real, de toda minha anterior indagação
restou somente um filete de sombridão.
Uma sensação, um tremor.
Mas aí…
LUA CHEIA
Encaixe perfeito.
A luz me contempla por inteiro.
A seiva subiu os galhos, propagou o odor
e a noite tem cheiro forte de jasmim.
Preparo um banquete.
Pinto os lábios de carmim.
Todos os frutos do meu mar.
Coloco a mesa.
Monto a ceia,
em toalha de cetim.
Sem precaução nos bolsos.
Estou entregue, desarmada:
nem prata, nem festim.
Deixo a minha maré subir sem temor.
Eu brilho inteira quando ao seu redor.
LUA MINGUANTE GIBOSA
Estou estranha.
Limbosa.
Uma melancolia me toma,
mas não sei da onde vêm.
Sinto o cheiro de algo além.
Estou inteira fora do lugar.
Minha boca tem gosto de metal,
com resquícios de poeira lunar.
Alguns chamam intuição.
Mas meu satélite diz:
“Bobagem.” “Tem nada não.”
Assim, poucas palavras, frases curtas
ou monossilábicas.
Alguns culpam sua composição:
mistura de metais pesados,
de longe cintila, de perto intoxica.
Mas meu satélite é misterioso.
Nunca se explica.
É dado à comunicação silenciosa.
Quando fala muito, se complica.
LUA QUARTO MINGUANTE
Silêncio cortante.
Satélite oscilante.
Metade reluz/metade distante.
Me sinto sem ação.
Minha maré recua.
Me recolho por proteção.
LUA MINGUANTE
Era mentira.
Projeção.
Nunca ninguém pisou ali.
Tudo enganação.
Evento televisionado.
Tudo ensaiado.
Este satélite existe de fato?
Ou é só performance, falso self, teatro?
Será que posso culpá-lo pela atuação ou será autopreservação?
Distanciamento por segurança.
Sendo eu a perigosa,
igual a ele ou pior, afogo banhistas por diversão,
aqueles que me adentram tentando especular e ignoram a placa: “Atenção!”
Mas será que ele me
machucou por diversão?
Ou foi tudo fruto da imaginação?
Minha mente infante, delirante,
criou esse corpo celeste
gigante, brilhante.
Esse ser selene,
reluzente,
se fez presente
e eclipsou.
Sem aviso prévio,
outra vez me abandonou.
Corpo celeste
que ainda orbita em mim.
Satélite presente,
ainda que ausente.
Tenho fama de mar bravo.
Mal sabem que minhas flutuações nervosas
são ondas tempestivas,
influências do espaço,
por aproximação exagerada
ou distante descaso.
Nunca algo na medida.
Nada que contemple adequadamente minha corrente marítima.
Minha água é passional.
Não tem cura,
é temperamento.
Dou show na orla.
Mágoas criativas sedimentadas no leito,
trago à superfície numa maré de loucura.
Reviro um Titanic emocional.
Vômito meu passado
sem ressaca de moral.
Potencial intelectual.
Ou necessidade destrutiva?
O mar sempre gera
questionamentos de narrativa.
O mar tem plateia, o mar tem julgamento:
“Você viu o temperamento?”
“Deus me livre!
Que descontrole!”
“Fazer esse auê todo, olha a destruição!”
São sempre os mesmos: fãs e haters na orla discutindo sobre a marola, mas nunca olhando pra cima:
O ser reluzente em alta estima tem
apoio e galera,
de natureza velada, figura respeitada.
Não chama atenção indevida.
Faz apenas movimentações comedidas.
E eu aqui, marítima:
pulsão de morte, pulsão de vida.
Nunca sei o que fazer.
Sou refém dessas movimentações.
Eu queria conseguir poder
os meus líquidos, conter.
Penso que, na real, somos iguais.
Distanciamento e frieza
de um ser gigante, inteiro metal.
Eu, imensidão de água, cheia de sal,
imprópria pra consumo.
Nessa história não tem bom e não tem mal.
Tem o de sempre:
a minha maresia quase sempre corroendo esse metal.
Boio um tempo sem rumo,
querendo morrer.
Me dou o direito de contemplar
minha maré de tristeza.
Tristeza letal.
Fito de tempos em tempos
nos olhos de um amor sepulcral.
Que foi meu bem e meu mal.
Meu profundo desespero.
Permaneço na superfície,
meio grogue.
Mas sou uma sobrevivente nata.
Não há caldo que me afogue.
Sinto que boiar sem lutar contra minhas próprias flutuações é o que vai me sarar.
Eu comigo mesma: o mar.
Então boio no meu sal.
Curo minhas feridas.
Eu consigo se eu continuar aqui, sozinha, presente,
sem focar no que está ausente.
Me atendo ao que é real.
Meu corpo vai sanar por completo.
O sal sempre cura,
chora ou mergulha.
…eu e os meus pensamentos, notas mentais enquanto ondejo sozinha no meu desalento…
…E aí,
sem aviso,
de repente, do nada,
sinto um fôlego de vida
no meu corpo que estava de partida.
Sinto algo subliminar, magnético,
força estranha, esquisita,
que me puxa pra cima,
me levanta da cova:
LUA NOVA