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PELES 

 

Outro dia queimei a mão.

Água em ebulição. 

Direto na pele, transbordando, extravasando os limites, caindo no chão.

Me pegou em cheio, desprevenida, 

sem personagem, despida. 

Eu e minha derme,

pelada.

Eu e minha derme,

gelada.

A verdadeira, não a que eu criei pra entreter e performar.

Eu e ela, desguarnecidas, sem argumentos, 

sem xingamentos na ponta da língua. 

Ali parada, cabeça na lua, coando café.

Eu e ela absorta em pensamentos,

devaneios de garota e mulher.

Eu nunca sei o que eu sou.

A minha pele também não.

É uma adolescente emocionada 

que não possui critérios de enredo,

arrepia em qualquer pensamento.

A minha pele tem memória,

não perdoa nada, 

ouriça pra tudo:

Música, cheiro,lembrança.

A minha pele é uma safada.

 

Estávamos eu e ela

eu profunda,ela superficial.

Eu e ela,

numa manhã de segunda.

Era sol mas eu parcialmente nublada,

o meu habitual.

Nuvens vaporosas de pensamentos absurdos em suspensão,

que me tiraram a atenção.

Eu faço isso tem tempos,

escapo pro imaterial.

Pele presente, mente ausente,

meu estado normal.

Eu, ela e a água em ebulição 

que veio ao nosso encontro 

sem perdão, em colisão,

direto na minha derme emocionada.

A água escaldou meu pensamento.

Me trouxe de volta, desolada ao momento.

Despertei sozinha,

presumindo, machucada.

 

Mas quando olhei, nada. 

Não havia resquício de dano ou dor.

A pele intacta, bonita, perene sem rubor.

 

Pensei:

Desatei no modo indolor. 

Estou tão escaldada 

que não sinto nada? 

Nada acontece na minha carcaça?

 

Meu Rg termina em X 

Vai ver sou uma X-Men 

com super poderes de regeneração.

Sem rugas, cicatriz ou escoriação.

 

Eu quando criança,

era criança-flor.

Não dava trabalho, 

não tinha xilique nem choro,

mas alergias e atopias 

castigavam o meu couro. 

Desabrochava na superfície todo e qualquer incômodo emocional.

Pintas, hematomas e 

grosseirões em forma de flor.

Hoje sei o fundo psíquico, era dor.

Mas o médico dizia ironicamente:

“Alergia a água quente”

 

Criança a flor da pele.

Sensível, visceral, 

eu sempre fui meio animal, 

pêlo em riste, língua pronta pra atacar.

De poucos amigos, quase sempre triste.

Absorta nos meus pensamentos 

de criança nefelibata, massinha nas mãos,

por fora parada, na mente,acrobata.

 

Depois… 

 

Adolescente problemática.

Entendi cedo as aderências e preferências 

da minha carcaça.

A minha derme gosta do dano.

O raciocínio era simples:

Me machuca que eu gamo.

Entendeu que tem que sofrer

pra se sentir amada.

E que nessa brincadeira de amor, 

eu que saio chamuscada.

Essa ótica passional,

em constante estado de limerência,

tomando conta da minha consciência.

Regeu por uma vida, a sinfonia 

do meu estado emocional.

Até eu ter sapiência das circunstâncias e conveniências e não que não importa a aderência da minha pele com a de ninguém.

 Química não dita predileção, 

eu nunca fui opção.

Eu sou a que sobra,

e isso nada tem a ver com a minha ação.

Entendendo minha essência,

adulta ativei o modo cobra.

Aprendi a rastejar,

sem deixar ninguém me humilhar.

Rastejo pra sorratear,mas sem intencionamento ruim.

Sorrateio furtiva apenas informações 

que coleto e coleciono por hobby.

Saberes e conceitos inúteis num pote.

Adesivado e entitulado: 

“Evidências” 

Que guardo num quarto escuro da memória pra não oxidar.

O que eu sei é meu e ninguém vai me tirar.

 

Nesse quarto de lembranças, 

tem poeira, melancolia,

silêncio.

Tem souvenires das minhas andanças.

Livros e migalhas coletadas do meu observar de terceiros,

e peles.

Peles que deixei.

Desabitadas,abandonei.

Eu nem sei mais quem são.

Estão jogadas,

amontoadas aos montes,

criando bolor, sem função.

Busco nos recordos 

a sensação 

de ser aquelas tantas que fui

 e não sou mais.

 

Abandono minhas peles obsoletas.

Não carrego peso adicional 

de ser o que não sou.

A leveza mantém a cútis de ninfeta.

Me dispo de qualquer obrigação social.

Abraço minha essência imaterial.

 

Minha cútis preservada 

engana, ludibria 

porque já foi machucada.

Sofreu escoriação 

que estimulou a produção 

de algo que servisse de proteção.

Colágeno de dor.

Proteína de resistência,

fez manutenção na minha aparência.

Pele que não supera,

regenera.

 

Quem eu fui, quem eu sou e quem me tornarei,

são três pessoas diferentes nessa equação. 

Equação confusa que se subtrai uma pele 

e se ganha ainda assim.

A cada skin uma skill.

Sei que a cada pele que abandono,

 aumenta o meu brio.

 

Hoje eu quase sei quem sou.

Ando fria,

calculista,

medindo a régua 

o meu sentir.

 

Dosando a conta gota 

tudo que sai daqui.

Estou nessa de me economizar.

Achando custoso,

demasiado chato,

falar.

 

Ando meio planta,

eu que sou bicho,

nem parece que existo.

 

A minha pele é que não sabe quem é 

Antes visceral, em plena flor.

Qualquer motivo manifestava em superfície,

comunicando angústias cutâneas.

O submundo da epiderme 

brotava em mim instantânea.

Verdades invertidas do inconsciente,

tipo Lacan quando diz: 

A angústia não mente.

 

 

A minha pele coitada nunca soube mentir.

Até agora tudo o que fez foi sentir,

no pêlo, sem proteção.

 

Agora anda dormente.

Xilocainada 

Distanciada da dor.

Não sofre abrasão,

não sente calor.

 

Desapegou dessa coisa de sentir amor.

Coisa inútil, sem função.

Te deixa fraco, sem ação.

 

Ultimamente 

sou funcional,

Pragmática,

sem tempo pra sofrer.

Torneira aberta, mão embaixo.

Alguns segundos,percebo que sarei.

 

Bloco de notas, anoto: 

“Queimei a mão e nenhuma comoção.

Isso certamente é uma coleção.”

Eu sei, corriqueiro e ordinário o fato.

Mas é pra contar que estou 

regenerada da minha alma incendiária.

Toquei com a vida,

fui colocar comida pros gatos.

 

O que antes ardia, machucava, consumia,

tava vivo…

Hoje,só me aquece o criativo.

Vão dizer “Transformou-se.”

Eu já digo:

 

“Deformei-me para nunca mais.”

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