
coleção nova

JÚPITER E SATURNO
Hoje:
Planetas em conjunção.
Dia estranho inicia uma era
de impossibilidades possíveis.
Tudo que é sólido desmancha no ar.
Era de ar.
Meu ar,
esse que sempre faltou por você,
no ano em que o ar faltou pro mundo.
Ar que agora domina tudo.
Ar “prepotente”.
Que não compreende, não consegue ver, não sabe ler e, na inabilidade de apenas me sentir,
então pressupõe:
O ar mente?
Diz que está aqui e está lá.
Enxergo do alto seu acre.
Quadrado, delimitando fronteiras pra si.
Tentando ser terra boa de cultivo.
Plantação.
Eu, na sua visão,
apenas espantalho, sem função.
Parada ali,
figuração.
Seus pássaros não fogem de mim
porque se habituaram à minha silhueta.
Mas também porque sou oca,
sem órgãos, feita de ar.
Só em mim dá pra planar.
Você jamais será acre, porque é pântano.
É mais água do que terra e teme
a abundância de leveza e descomprometimento de ar.
Você não sabe lidar com nada
que te tira o pé do chão, o pé da poça,
essa lama, essa fossa,
que é você que
nunca soube amar.
O meu eu
volátil,
volúvel,
efêmero,
etéreo,
não lido,
não visto,
mas sentido,
temido.
E porque teme,
prefere odiar.
Não consegue admirar
aquilo que não sabe domar.
E ninguém doma o ar.
As pessoas bradam:
“Era de aquário!”
Aquela cantada em Hair!
Meus cabelos desatam a crescer.
Finos, eriçam e
pairam rebeldes na
estática daquele, sim, ele,
que está em todo lugar.
Criam ares de juba potente.
O ar é onipresente.
Sim, te incomoda.
Você sente?
Sim, meu Ar.
Este que domino,
habito e sou.
A sua Era acabou.
…Era uma vez você: Água e Terra.
Virou lama, a lama boa, maleável,
me fazia bem, inefável e suja.
De propriedades terapêuticas pra quem soubesse manipular, mas você nunca entendeu o que era amar.
Tomou minha brisa e endureceu,
mas não se deixou ser cozido
pela chama do Fogo e feneceu.
Fogo rejeitado que habita em você,
que habita em mim,
mas você rejeita em você,
tudo o que vê aqui,
mas o meu ar alimenta o meu fogo.
Se você tivesse acolhido o seu,
tinha cozinhado, virado utensílio,
cerâmica das fortes.
Você não cozinhou.
Apenas secou.
Virou torrão,
sem função.
Que hoje tomou um vento mais forte,
trazido acumulado de eras
pela energia da conjunção.
Júpiter e Saturno
te esfarelou.
O sopro levou.
Foi varrido
com inegável desembaraço
na dança airosa, leviana de ar.
Eu tô aqui e eu tô lá.
Eu não estou em nenhum lugar.
E você e sua sujeira se foram.
Num poema de desapego estético,
sem rima de fina construção,
apenas brisa,
de um registro sincero de adeus.
Escrita regurgitada,
biliosa sem função.
É porque às vezes
vem melancolia de outras eras.
Vem neblina,
mistério e gotículas
suspensas na atmosfera.
Embaça a visão,
umedece o ambiente.
Você sente?
Fico de tempos
suspensa no vapor.
Pairando o mangue
de odor acre, de uma cor ocre.
E então retorno ao solo seco.
E não importa que somos sangue.
Nossos líquidos secaram
no meu rito de adeus,
desejo potencializado
pela era de aquário,
essa que não existe,
não acredito,
mas falam,
na força do pensamento duplicado,
de que você foi embora de mim.
Por favor, não retorne jamais!
Aqui assino, aqui estou.
Repito agora:
O seu tempo acabou.
…
Foi embora sem alarde
numa brisa cósmica, fim de tarde.