top of page
Photoroom_20261009_141632_edited.png

 ​FIDEMINUS

​

Percebendo a aproximação de um porco ofegante, bosque adentro, tocha na mão, afoito por inquisição,

uma tranquila raposa, tomada de uma brisa de empatia,
cheirou fundo um punhado de lavandas.
Sentada em sua cadeira de madeira,
de pernas cruzadas,
esquerda sob direita,
embaixo de uma árvore com flores Wisteria,
fez sua pronunciação,
uma longa explicação do
porque vive reclusa no bosque,
evitando interação.
Abaixou a mão ao lado das pernas,
acariciou uns dos gatos.
Abre um livro empoeirado,
vai explicar didaticamente
em forma de fábula.

​

FIDEMINUS — A FÁBULA DO PORCO OBCECADO.

Ela resolveu ler em voz alta,
sabendo que o ruminante prestaria atenção.
Quem sabe o porquinho entende a pauta, cata a visão
e desiste da ação.

Era uma vez um porco arquiteto bobalhão,
com sua grande régua moral na mão,
todo falastrão,
metido a sabichão,
achando que era o bom.
Falou coisas de péssimo tom,
propagou inverdades,
falou das minhas sacanagens,
daquelas que nem cometi, será?
Dessas que falam por aí.
O que fiz já assumi:
amei, me enganei,
sofri demais,
arrancaram meu couro,
usaram minha pele,
573 anos atrás.
Essa eu já morri.
Mas renasci.
E tenho memória.
Gosto de falar das minhas histórias,
daquelas que vivi,
que me trouxeram até aqui,
que me fizeram ser o que sou.
Não há pecado em falar.
Qual é a corrupção?
Porque a inquisição?
Falo e não Kahlo, já disse.
Assumo o que sou.

Mas deixa eu me apresentar.
Sou uma raposa peculiar,
nascida às 16:20 de um dia lunar.

Sou feita de flores exóticas, ervas daninhas,
liquens, musgos e fungos.
Observo as estrelas, admiro planetas,
gosto dos insetos,
escrevo minhas melancolias
e coloco na gaveta.
Olho pra lua, mas não me enfeitiço pelo brilho dela.
Invado galinheiros por diversão,
mas não mato.
Sou uma raposa que come mato,
inofensiva, mas nenhum pouco besta.
Se precisar, ando sozinha no breu.
Solitária sem muita opção, meu couro é visado, mas tenho outras raposas que conto na mão, tão atrevidas quanto eu.

A real é que eu poucas vezes me despi do meu couro,
tirei a minha máscara pra alguém.
O fiz apenas uma vez,
mas nessa época eu não valia
nem um vintém.

Minha língua não fere, não julga ninguém.
Falo do que está além, nunca aquém.
Faço poemas, não profiro sentenças.
Sou raposa, mas não caço ninguém.

(Pausa de silêncio pra minha hipocrisia…)
Continuando…

Falo de amor, de dor, de humanidades.
Do que sinto na minha pele
imperfeita de raposa mulher.

Porco arquiteto que não arquiteta.
Cheio de planta furada, que piada.
Vive mirabolando.
Perde tanto tempo me caçando que
nunca vi sua assinatura em nada.

Você arquiteta me pegar.
Faz planos, traça enganos.
Me caça feito bruxa,
junta sua lenha,
monta minha pira,
reúne evidências
pra me condenar.

Encasquetou que sou uma bruxa
encantadora que lançou
feitiços em jacaré macho.
Criou teorias sem checar os fatos.
Já disse que do jacaré pouco sei.
Ouvi dizer que perdeu os dentes, não predava mais ninguém.
Depois perdeu o couro, virou bolsa de senhora de gosto duvidoso, coitado. Era o alpha do lago, tinha potencial, mas calculou errado, achou uma presa fácil e era emboscada, foi capturado.

Porco, ouvi dizer que você
tá barbado no quadro,
sem tomar banho,
há dias tentando ligar os pontos,
catando as migalhas dos meus contos
pra me queimar.
Não vai conseguir.
Eu sou mais inteligente que você.
Dizem as más línguas que sou maluca, estrategista,
raposona de pista,
inteligência feminina,
selvagem intuitiva uterina,
costela recurva
que afronta sua retidão.
Porco arquiteto canastrão,
com a régua na mão,
hipócrita feito Adão.
Tá me tirando, mermão?

Te farejo antes de me encontrar.
Leio intenções, tenho percepções.
Saco sua movimentação
e sumo antes da sua ação.
Me escondo, rio de vc, aqui da floresta.
Danço, cozinho, canto, convivo com animais.
Com meu mato faço minha poção, vivo 420 anos com o meu caldeirão; nele vejo você
dando voltas em vão,
tentando me pegar, quer me condenar.
Sonha me queimar pra multidão.

Mas dou uma volta em você,
voando em círculos em sua mente,
na minha vassoura imaginária.
Você alucina demais, meu camarada.
Ahhh, porco, vai estudar antes de taramelar.
Vassouras voadoras não existem,
bruxas também não.
Eram só mulheres inteligentes, com sabedoria inerente, vivendo numa época sombria, burra, doente.
Morreu foi um monte de mulher inocente
por ignorância, igual à sua em abundância.
Mas já que insiste em alucinar,
te empresto ela se precisar
varrer as suas sujeiras pra algum lugar.

Antes de tentar me fumegar, quem aponta o dedo precisa se certificar se não possui arestas a aparar.
Porco precisa parar de fofocar.
Fala muito de pocilga a persigal.
Propagando o nome de raposas nas rodas.
Nossas habilidades e intelectualidades te incomodam?
Você parece não gostar de mulheres de espécie alguma.
Você não poupa nem suas porcas!
Já ouvi na boca miúda intimidades que você espalhou em masculinas rodas sobre a sua senhora.
Deveria se envergonhar.
Mas ela pode ficar tranquila, da minha parte isso não vai se propagar.

Eu já disse que sou mais inteligente que você?
Repito se precisar.
O meu cognitivo é apurado, rápido, ligeiro feito beija-flor; eu não me alimento de dor.
O meu alimento é o criativo, néctar da floresta.
Nessa que eu habito e tanto te molesta.
O seu cognitivo é lento, movido a comida funesta.
Porco metido a urubu, você se alimenta do que não presta.
Feito ave de rapina, que voa em volta da carniça.
Se alimenta de sofrimento alheio, que feio!
Devia voltar às suas origens alimentares, detox de maldade pra ver se desinflama e melhora suas habilidades.

Por que me julga torta? Má influência?
Indigna de convivência?
Porque falo de tudo que senti?
Daquilo que vivi sem me reprimir?
Porque tô viva e não consegue me escalpelar, me consumir?
Sou torta mesmo, gauche de outubro.
Mas não danço em túmulo, não como criancinhas, nem curto carnificinas.
Gente igual você é podre por dentro.
Às vezes eu penso:
por que eu perderia o meu tempo?

Mas resolvi perder aqui pra te dar o papo,
uma única vez, já que pediu atenção.
Acho que anda carentão.
Então é o seguinte:
pega o rumo de casa e cata visão.
Não vou falar duas vezes, não:

Porco, meu querido,
larga de ser tolo, meu amigo.
Você é porco e eu raposa.
Natureza distinta.
Você rumina seus incômodos.
Eu monto um estratagema com os meus.
Recolho paciente os limões jogados em minha direção
e espremo um suco, ácido, um shot poção.
O sumo do incômodo nutre o criativo,
me aguça o cognitivo, fico louca pra criar.
Olha que perfeito:
ganhar dinheiro e reconhecimento
em cima do ódio alheio.
Então pode continuar.
Do que vc me chamou?
Feminista?
Você sabe o significado ou é mais uma das coisas que vc grune de forma convencida, sem o conhecimento necessário?
Poderia terminar essa fábula aqui, com uma única frase:
larga do meu pé, Porco Chauvinista!

“Toma aí mais uma expressão pra sua pesquisa.”

Mas como tenho educação, vou tachar essa frase feito o logo da marca e continuar a minha explicação, porque sou apegada à convenção e toda fábula deve terminar com uma lição. Então aqui vai:

Porco, você não entra na floresta.
Não sabe o caminho; até cata as migalhas que deixei, mas não tem intelecto pra interpretar o que falei.

Sem inteligência, sem evidência.
Sem evidência, é só especulação.
Então guarda no bolso a esculhambação.
Não vai ter esculacho, inquisição.
Tudo que você tem é só
teoria da conspiração.
Não se condena mulher a bruxa sem fato;
quero ver é provar o ato.
Desmonta tua pira,
usa sua lenha pra fazer um churrasco,
já que bicho morto inocente
é teu alimento, que asco!
Desconvida sua galera.
Você não vai me queimar na praça.
Você não me pega
e eu acho é graça.

Vai na luz, rapaz, tá enxergando um clarão logo na entrada?
São os cinco minutos de holofote aqui de graça
pra você que ama aparecer
e quer palco e atenção,
mas não tem capacidade
de ser a única atração.
Aí fica dodói, ressentido.
Tá com o ego ferido?
Na humildade, meu chapa,
aceita a situação.
Eu não tenho medo
de porco macho falastrão.
Pare de tentar provar a sombridão
de quem nem te dá atenção.
Você garganteia saber edificar.
Porque tanta fixação em me derrubar?
Não cace bruxas, elas não existem.
Sua comida pesada está te fazendo alucinar.
Isso não se faz!
Inveja é um sentimento mordaz!
Cace algo útil pra fazer.
E, pro seu bem, porco…
Acho melhor me deixar em paz.

Veja bem, isso não é uma ameaça, é apenas uma historinha em forma de fábula, cheia de graça,
porque raposas são bem-humoradas.

A raposa descruzou as pernas, fechou o livro, fitou o infinito, respirou fundo o ar limpo da floresta e pensou:
Aqui dentro nada me molesta.

Porco voltou pra casa pensativo. Como ele vai provar pros amigos ruminantes que a raposa o ameaçou e que ele é o porco do livro?

  • Instagram - White Circle
bottom of page