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CAVUM

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Outro dia sonhei

que tinha ido no telhado procurar
o que estava persistente a me molhar.
Caía água dentro de mim.
Inundava tudo aqui.
Sentimentos confusos de inadequação.
Dificuldades de socialização.
Água heterogênea de calha.
Goteira insistente, pensamento latente.

Caos,
mar de palavras.
Me inundando à noite,
aonde, na normalidade,
se espera cabeça parada.

Subi no telhado.
Procurei o problema.
Encontrei um buraco.
Chamam-no Cavum.
Uma enorme fissura
por onde me entram
angústias que, em tese,
eu saberia lidar.

Ali me entra de tudo:
ideias noturnas de texturas,
superfícies.
Enxurrada de leituras
sobre problemáticas, existências,
linguagem corporal,
a minha e a sua.
É que eu sou mezzo racional,
mezzo passional.
O que homens chamam de loucura,
(conveniente chamar assim)
eu entendo por extra sapiência.
Tem homem que gosta
de mulher normativa,
porque essa não saca as suas deficiências.
Então pode espalhar que sou:
Maluca estrategista.
Racionalizo existências,
calculo, pondero, crio evidências.
Aonde deveria ter massa, cola social,
soldando os dois hemisférios,
me habita um oco buraco emocional.
Sou todo mistério.

Mentira,
eu sou é livro aberto.
Difícil é me ler.
Nem eu consigo me entender.
Escrevo pra me entreter.
Textos cifrados,
tipo Da Vinci, ao contrário.
Tem fanfiqueiro
barbado no quadro,
mas quase sempre
só estou tirando sarro.
Tem gente que jura que me leu.
Tese pronta na gaveta.
Cala-boca, já morreu.

A verdade é que não doso bem.
Deságuo em gente desavisada.
Ou é enxurrada ou é nada.
Tem gente que eu preciso gotejar,
aí eu vou lá
e afogo a pessoa no meu mar.

Tem gente que me pede imensidão,
e eu respondo homeopática,
conta-gotas, em doses de precisão.

Gente normal me enfada.
Eu gosto dos malucos.
Os meus prediletos:
Dylan, meu pai e meu irmão.

O meu cérebro é confuso.
Agora sei o nome, em latim:
Cavum do Septo Pellucidum.
Explicando de forma imagética:
As minhas margens límbicas
são afastadas, bordas translúcidas,
margeando o nada.
Uma caverna no emocional,
mas eu vivo transbordando passional.

Um oco criativo.
Rebelde sem motivo.
Que não aceita regras,
que vive por prazer.
Mata e morre se puder.
Ali habita um pequeno
animal enclausurado.
Batendo cabeça,
de um lado a outro
na parede septal.
Dentro do buraco marginal.

Sou consciente do selvagem
que me habita; sabendo do meu caos,
sou aficionada por controle.
Flagelo minha carcaça
produzindo superfícies em massa.

A verdade é que estou cansada.
Resolvi experimentar
outras formas de me expressar.
Quero por vezes,
assim como os outros: o nada.
Fazer uma roupa e não surtar,
costurando 20 quilos de resíduo numa saia.

Sigo com minha obsessão
com repetição e padrão,
mas agora com moderação.

Obsessiva controlada.
Vamos ver o que vai dar essa nova empreitada.
Tenho fama de prometer e não cumprir.
Prometo dosar e decepciono.
Me vendo moderada, medicada,
quando vejo, me emociono
e estou caos de novo.
E aí reverbera nesse meu fazer barroco.
Obsessiva-compulsiva das superfícies,
e o que eu bordo não é pouco.

É que eu tenho um buraco na cabeça…
e colérica melancólica,
muita água habita mim.
E aí nunca é poça, é poço.

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