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BRYOPHYTA

CRIPTOGAMA

 

Minha água
repleta de colônias
te convida a viver,
mais cem anos
virados ao nascer,
sentados ao entardecer,
de costas ao poente.
Olhamos juntos,
centenários, enrugados,
cardinais,
para a terra do sol nascente.

Habitamos lugares ideais.
Panaceia sem poluição.
Somos complexos,
simbióticos, mutualísticos.
Filhos de Fungo e Alga.
Composê de seres distintos.
Bipolaridade é a nossa alma.

Saúdo então a cultura japonesa.
Nela, seres como nós
são realeza.

“Kokemusu”
Te esperar fez meu corpo
cobrir-se de musgo.

“Koke no koromo”
Me tornei zen
e não sei como.

“Wabi Sabi”
Imperfeição e transitoriedade.

A liberdade é infinita.
Descobri beleza
em lugares ocasionais.
Porque o belo nasce
daquilo que não se obriga.
O belo é feio.
Porque no feio habita
o belo que intriga.

O belo nasce ordinário.
Sem conceito definido.
Finca morada em
lugares indistintos.
O belo nem sempre é bem-vindo.
O belo por vezes é arrancado,
feito gramíneo,
erva daninha.

O belo nasce sem entendimento.
Lhe falta respeito e distinção
de flores e plantinhas padrão.

Musgos, liquens e fungos
só são admirados no Japão.

Nossos filhos imaginários:
Selvagens e ordinários.
Visões e imagens oníricas,
desses seres mágicos,
que desconheço, mas penso.
Alucinógenos,
exóticos,
curativos.
Uma apresentação sem cerimônia:
Te fazem um bem milenar,
intoxicam pra matar.
Você escolhe qual chá tomar.
Expertise e aprendizado
a partir da decomposição de matéria.
Resilientes, inovadores,
eles facilmente crescem na merda.

Eles não existem.
São visões deturpadas,
alucinadas,
da minha imaginação.
Eu os crio em minha cabeça
tomada de emoção.
Lendas espóricas
sopradas ao vento,
cantadas em gerações.

Sobre Musgos e Liquens
e amores não tradicionais.
Como toda lenda,
tem quem aumenta:
Esses cogumelos não têm pais.
Eles não existem, lembra?

Sou Bryophyta Criptogama,
Amanita Muscaria, filha de fungo e alga.
Não floresço nem dou sementes.
Mas crio esporos intelectuais,
descendentes assexuais.
Espalho conceitos ao vento,
que germinam com o tempo.

Mas nem todos viram fungo ou musgo.
Pra ser um de nós tem que ter condição ideal:
Cantos, troncos em decomposição,
ombrófilos e sombrios,
úmidos e sem perturbação.
Eu não finco raízes,
apenas germino superfícies,
estranhas e abandonadas,
abonadas de água.
Mas, como disse, repito:
Não finco morada enraizada.

Gene ao vento,
mas sem monograma?
Parece comigo.
Pergunte-se:
É fungo, líquen, musgo?

Ou grama?
…
Quase sempre é grama.
Sintética, sem raiz,
lustrosa, perene,
colorida artificialmente,
no Pantone Verde Grana.
A rega de líquido encarnado,
na cor oposta, que derrama.

Por causa desse
que me corre confuso,
também dizem:
Não faço roupa.
Faço Drama.

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