
coleção nova

ESTUDOS
MELANCÓLICOS
Eu faço do meu caminho escadas.
Pareço curada.
Determinada a caminhar.
Sigo em frente.
Voltando esporadicamente
pra não me esquecer
de quem sou, de quem fui,
de quem amo.
Tento não padecer.
Alguém sempre
para de quina nessa escada,
pé esticado,
esperando meu passar.
Me fita no infinito,
não por amor,
não pra se achar.
Pra me desestabilizar, sim,
tropeço, sabendo.
Meto o joelho na escada.
Roxo violentão.
Pressiono a pele, envergonhada,
já prevendo meu gatilho.
Pronto.
Lá vem a escuridão.
Volto ao torpor do nada.
No desencanto geral.
Desando.
Desamparada.
Não costuro meus degraus.
Passo um tempo solta, largada,
letárgica.
Sem planos pro final.
E aí,
retorno a enosar.
Carrego feito fardo
meus nós pendurados.
Faço planos de vingança,
que nunca dão em nada.
Faço desfiles.
Faço poemas.
Me digo curada.
Minto.
Falo aqui do meu caminhar,
do meu medo de prosseguir,
do meu medo do que está por vir.
Tenho medo dos tempos,
das pestes,
do ar,
de mim.
Hoje meus cachorros começaram a mancar.
Mas sou eu que paro de andar.
Nesse momento deixo de existir.
Cesso minha existência ali.
Tenho medo de qualquer mísero,
ínfimo sinal de finitude terceiras.
Sem eles não quero continuar.
Perpetuar porcaria nenhuma.
Não tenho filhos porque
não saberia me multiplicar,
me dividir em mais gente.
Já existem muitos pra perder.
Eu já vivo com medo de morrer.
Existe um caos dentro de mim.
É sempre uma bagunça aqui.
Eu tento me regrar, galgar degraus,
seguir sem medo,
ainda que a esmo.
Mas eu sou do passado.
Vivo de retornar ao Mesmo.
O Futuro nunca prometeu.
Por que prosseguir?
Quero parar.
Quero congelar.
Quero por vezes o torpor
de nada sentir.
Felicidade encapsulada,
apatia sintética.
Estar na média emocional
poderia me bastar.
Passo o dia procurando
um lugar pra deitar.
Meu peito queima de medo.
Sinto dores empáticas.
Monitoro respirações,
faço observações,
me formo doutora
do que precisar.
Estudo formas
de prolongar
vidas necessárias
pro meu existir.
Sou formada,
perita,
em língua animal.
Falo cachorrês
como Rita.
Visceral tal qual.
Interpreto respiros,
lambidas de ar.
Conheço todos os olhares,
vivo de observar.
Eu estou toda remendada.
Remendos frágeis.
Fáceis de rasgar.
Por vezes escondo meus remendos.
Meu desando, meu desalinho,
minha falta em seguir,
meu desajuste do sentir
em carapaças farfalhantes,
embabadadas em degraus
de pura mentira e emulação.
Finjo sucesso, finjo firmeza.
Drapeados à pura enganação.
Eu sou formada doutora na arte dos engodos.
O que você vê não é real.
Escondo transparências rotas,
rasgadas,
dentro de volumes de nada.
Estou oca.
E quase sempre cansada.
Mas danço funk, dou risada, faço piada.
Finjo demência,
me emulo rasa,
mesmo sendo do introspecto.
Sou profunda, soturna, lamacenta,
quase um dejeto.
Estou enferrujada, obsoleta.
Ninguém fala o meu dialeto.
Meu rolê é confundir.
Lua em gêmeos, dizem.
Não acredito em signos.
Acredito em insetos.